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Coexistir sem domesticar

As minhas ruminações sobre os ainus em Yotei.

 

Um breve prólogo: antes e além de psicóloga, eu sempre fui nerd e amo videogames. Sonic, Zelda, Assassin’s Creed, God of War, Fables: The Wolf Among Us, Persona. Com o tempo RPGs com imersão se tornaram minha paixão. E em 2025 eu confesso, eu tinha altas expectativas com Ghost of Yotei, depois de ter jogado Tsushima, e por ser um jogo ambientado num japão feudal com uma mulher protagonista e duas katanas. Mas o jogo foi muito, muito melhor e simplesmente porque eu conheci os ainus. E me encantei por um povo que eu nem sabia que existia.

Você está lá, num campo imenso de uma ilha chamada Yotei, toda fodona com suas armas e habilidades, montada num cavalo lindo, com uma paisagem linda, o vento te guiando... e aí o jogo quebra todas as expectativas: você entra numa fase em que seu objetivo não é matar inimigos, nem ficar mais forte, nem sair cortando cabeças (ogunhê meu pai!) – seu objetivo é ouvir a matriarca da tribo. É aprender seus costumes e segurar seus impulsos. É honrar os espíritos dos vivos e dos mortos e qual seu lugar entre eles. Salvar um animal para ser morto depois, pois o tempo é valioso e a vida, sem dar valor ao tempo, não faz sentido.

Não sei se fui clara: quase todo jogo a gente pula de fase em fase ficando mais forte, ganhando mais poderes, mais armas, mais morte. Yotei te pausa, do nada, e te coloca numa fase inteira só para conviver com eles, os ainus[1]. Não tem batalha de verdade, pois os ainus são contra tirar uma vida humana, e evitam isso a todo custo. Você conhece a conexão deles com a natureza, os animais e os kamuy[2], espíritos sagrados da natureza. E se parar no tempo – na briga, na violência, na ânsia de destruir e encerrar logo aquela história sofrida de vingança!!! Aahhh!!. Enfim, se parar no tempo não foi o bastante, os ainus te propõem repensar a forma como entendemos o tempo, a vida e os vínculos através dos seus kamuy mais importantes: o urso. A missão é simples: resgatar um filhote de urso, e no meio do resgate, se percebe que a mãe urso faleceu. Então a matriarca convida o urso para a aldeia. Ela avisa que se, e somente se ele escolher uma casa, ele será adotado pela aldeia, pois cabe a ele a decisão. O filhote escolhe um lar – e a matriarca avisa: ele viverá dias felizes, cuidados por toda aldeia, até ser morto por ela.

Como assim? Vocês vão matar o filhote de vocês???  A mãe de pet surtando internamente.

Um urso filhote é fofo e gentil, mas um urso adulto colocaria toda a aldeia em risco – explica a matriarca, com outras palavras, obviamente. Por outro lado, se ele retornar sozinho, ainda tão pequeno, para a floresta, ele não viverá mais que dias. Para os ainus, o tempo é valioso quando é vivido em paz e união. Eles darão comida, abrigo e afeto ao urso enquanto for seguro para eles também. Quando deixar de ser, o animal será sacrificado, num ritual de honra ao espírito protetor que ele se tornará. Para os ainus, a vida em comunidade e acolhimento, ainda que por pouco tempo, vale mais a pena que uma vida exposta à violência e ao abandono, seja pelo tempo que for.

Afinal, apesar de todo afeto, um urso ainda é um urso.

Nessa hora, a mãe de pet só agradece os pequenos arranhões e mais nada.

Eu poderia agora encharcar esse texto de coachismos e dizer como essa lição de vida nos fala sobre limites, sobre valor, afeto e bla bla bla. É, mas é meu blog e eu não vou mastigar a experiência para vocês. Passem por ela.

O jogo continua. Eu não vi o urso depois, não o vi crescer, mas aquela cena me acompanhou dias – de fato, me acompanha ainda.

Será que eu sei conviver até o tempo certo das coisas? Será que eu sei que nem tudo pode, nem deve, ser domesticado? Animais, pessoas, trabalhos, situações, corpos, emoções, pensamentos – a fábula do escorpião sendo o que é, e a frase magnífica de Bill Watterson em Calvin e Hobbes: “se pessoas pudessem prender o arco-íris em zoológicos, elas o fariam” e o urso dos ainus, ficaram conversando comigo todo final de 2025. Três senhores do tempo e da natureza das coisas tomando seu chá em volta da mesa, olhares bucólicos e entediados me dizendo: e agora, Gi, entendeu?


Entendi nada, senhores. Nem me atrevo! Posso saber de mim, se muito – e se eu fosse uma ainu, eu torceria que o urso escolhesse minha casa. E estaria lá, no dia de sua morte, honrando sua natureza. Nos meus achismos, a gente deve amar as coisas como elas são, e da mesma forma, devemos nos preservar delas, por serem como são. Amar nunca foi sobre ter, não é mesmo? Às vezes, amar nem é sobre conviver – amar pode ser observar, adorar, admirar, e pode e deve ser dentro dos limites que cada um sabe melhor para si. Porque amar nunca, nunca pode custar o amor de si mesmo.

Digo aos olhos estereotipados, mas eles já se cansaram de mim e se tornaram outras fábulas.

Antes até de dezembro terminar, eu já tinha terminado o jogo Ghost of Yotei. Deuses, eu poderia escrever um livro sobre – eu tinha altas expectativas? Tolas, tolas, perto da aventura que vivi ali. Como um livro cheio de botões para apertar e cenas para vislumbrar. Foi uma boa jornada, e meu coração agradece esse momento.

Quem sabe, durante as cavalgadas pelos campos, entre samurais e guerrilheiros desse nosso próprio jogo aqui fora, a gente possa encontrar qualquer lugar que seja, nem grande nem pequeno, cheio de peixes e um filhote de urso escolhendo sua cabana – e que ali terá seu tempo, como todos nós temos.

 

 

Referências:

 

 

Ainu, o povo indígena do Japão que vivia com ursos - https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-54991240

 

 

Quem Eram os Ainu? - O Primeiro Povo do Japão Que Quase Foi Apagado da História - https://www.youtube.com/watch?v=gf0_SY4ZlQI

 

 

 

 

 

 


[1] Os ainus são um povo indígena japonês, vivam predominantemente na região de Hokkaido; com as invasões e guerras perderam território e foram quase exterminados. Até hoje, muitos ainus brigam por consolidar sua cultura, existência e direitos territoriais.


[2] No meu leigo entendimento, vi alguma semelhança entre os kamuy dos ainus e os kami dos xintoístas, mas não tive acesso a algum material que explanasse melhor esse assunto.

 
 
 

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