A mulher sem vaso
- Gisele Laranjeira
- 23 de abr.
- 5 min de leitura
Nunca fui muito chegada às flores; um absurdo, sendo filha de dona Fátima, senhorinha do jardim mais vívido e bem cuidado de Guarulhos City. Mas quando criança eu não entendia muito bem por que diacho se dava flores às mulheres, se não é de comer nem de ler nem de coisa nenhuma. Só enfeitar? Parecia tão pouco!
Mas flores são coisas de menina.
Sempre achei muito estranho esse conselho sobre o que é ser menina nas revistas e na TV. Eu cresci na época de Capricho, Marie Clare; com aquelas novelas pastelão do SBT (Maria del el Bairro yo so!) e com as Helenas do Manoel Carlos; cresci com as comédias românticas hollywoodianas com Drew Barrymore e Reese Witherspoon. Todas as mocinhas eram delicadas, sofredoras, morrendo de amor e vivendo por amor (de um homem). Sim, acima de tudo, todas sofredoras, como sofriam! Mocinhas que choravam e sofriam e esperavam ser resgatadas pelo grande amor do herói. Ah! e ainda tinha Vinícius, o Grande Poeta, com sua voz serena que sempre dizia:
"Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza Qualquer coisa de triste Qualquer coisa que chora Qualquer coisa que sente saudade Um molejo de amor machucado Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher Feita apenas para amar Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão" [1].
Então, coisa de menina é sofrer?
Acontece que, por sorte ou não, eu visitava outros mundos, outras histórias. Os mitos me contavam sobre outras mulheres! Li as histórias sobre Ísis enganando Rá para aprender sobre magia do mundo e se tornar sua guardiã; Oxum, formando aliança com Exu e se tornando a senhora dos segredos de Orunmilá; de Ártemis guerreando e punindo o caçador que a queria ver nua, sem seu consentimento; li Freya buscar o anel que tanto desejava pelo preço que fosse, sem nenhum herói e nenhuma culpa sobre isso; li sobre Durga, a guerreira que matou os demônios que nem mesmo Shiva conseguiu enfrentar; vi a história de Amaterasu, resgatada de sua caverna pela alegria e a arte de seus companheiros, não por um príncipe encantado. Na verdade, elas eram suas próprias heroínas. Nenhuma delas era uma Helena no Leblon; nenhuma delas era frágil ou dependente, e a conta simplesmente não fechava.
O que é coisa de mulher?
O fato é que se a gente não toma cuidado, acaba acreditando em cada coisa nessa vida que até as deusas duvidam. E para entender o que era mulher, eu precisava entender a minha relação com o meu vaso, as minhas flores.
...
Depois de formada nunca mais expus minha vida particular aonde fosse, muito menos na internet; mas aqui se faz uma exceção necessária.
Desde os 15 anos tive muita dor e muitas adversidades relacionadas à vida menstrual, muitas dificuldades de diagnóstico, muitos médicos passivos e desorientados, muitos tratamentos sem resultado. Eu tive também a idéia de mulher “veio ao mundo para sofrer”, afinal as mulheres da minha família também tinham ciclos intensos e prolongados, além de todas as mazelas de uma mulher brasileira, a busca do corpo perfeito, a culpa, a maternidade, as duplas e triplas jornadas. Por muitos anos, dizer não a essa crença foi uma batalha dentro de mim e de nós todas, com certeza.
Aos poucos – aos poucos mesmo – eu fui decidindo e aprendendo mais sobre ser mulher. Que ser mulher não é sofrer, ou não deveria ser. Por que diabos eu deveria sofrer? Por que diabos eu deveria gostar de flores, de boy band e de menstruar?
E se não fosse?
Todas as mulheres que conheci, ou li ou assisti falando sobre endometriose e outras dificuldades de saúde feminina, tiveram a mesma jornada demorada e depreciativa. A gente escuta sem parar que “cólica dói mesmo, faz parte”; questionam se a dor é dor mesmo, se é cólica ou intestino, se não é frescura, se não é estresse – como se dor não deixasse a gente estressada! Questionam nossa dor, nossa não dor, nosso cansaço de tanto sentir dor.
Então aprendi que a gente tem que ter muita certeza de quem é e do que sente para dizer sim à nossa dor. E só quando a gente aceita dor, a gente aceita o que é necessário para mudá-la.
Com muita insistência, os diagnósticos certos finalmente vieram. No meu caso, começou com uma adenomiose (surgimento de adenomas, cistos dentro do útero), que me causava cólicas extensas e frequentes, onde eu chegava a ter cólica até três vezes no mês, tonturas, enjoos, mal-estar. Em novembro do ano passado, o quadro se somou a uma endometriose atrás do útero, uma inflamação do endométrio que estava afetando minha coluna e passou a afetar meus movimentos (principalmente quando fazia exercícios). Essa inflamação podia chegar a outros órgãos; e os remédios já não faziam efeito sobre a dor. Escrevendo agora, pareço estar me justificando, e talvez esteja mesmo.
Eu precisava chegar a tanto? Para a nossa medicina atual, sim, porque até então, nunca haviam sequer falado em cirurgia. E só me falaram, bom, quem me falou foi uma ginecologista, mulher.
Dia 07 de abril fiz a histerectomia, uma cirurgia de retirada do útero. Retirei meu vaso biológico e junto dele, as flores que nunca gostei: o estigma da mulher que sofre, aceita, se submete a esse destino. Decidi não ter mais essa dor na minha vida.
Ser mulher é sofrer... ou pegar o destino para si mesma, como Oxum e Ísis fizeram?
É derrotar o demônio invencível, sim! Como Durga!
É ser a flecha de Ártemis condenando o intruso.
É abrir uma fresta na caverna, porque os risos dos meus amigos parecem muito, muito melhores que a escuridão, como se permitiu Amaterasu.
Eu sei que todas essas mulheres são simbólicas. E simbolicamente, o útero é o vaso da vida. É a essência criadora do feminino, seu aspecto mais divino, mais glorioso; afinal, nada mais feminino que ser mãe. É o símbolo-útero que coloca a mulher como detentora das qualidades daquela que acolhe, nutre, dá vida, dá cura, dá compreensão, dá amor. Mas também, esse mesmo símbolo-útero existe nos homens – porque essa é a grandeza de um símbolo.
E aos homens que me acolheram, me nutriram, me cuidaram, agradeço ao vaso que me ofereceram.
Todo símbolo é humano, e está dentro da gente como uma semente; alguns colhem mais, outros menos, alguns regam, outros esquecem. Mas no corpo simbólico, no corpo da alma, o vaso é um símbolo criativo, não um útero com adenomas e inflamações.
Decidi não ter uma dor, e é só isso.
Outras dores virão, pois espero envelhecer e ter muitas dores! E as novas dores encontrarão uma mulher mais forte. Aos 42 anos, renasce uma mulher sem útero, mas não sem vaso; porque dentro de mim as velhas histórias ressoam e incitam novas. Nunca desejei tanto voltar a criar, escrever, vivenciar outras aventuras! O que a dor antes me impedia de fazer e criar, o que a dor antes tratava meu vaso como lugar de sofrimento, abre espaço para um vaso anímico, simbólico, fértil.
Que flores virão, nesse novo momento, eu não sei. Mas elas já não parecem tão fúteis, sabe? Pelo contrário – decorar a vida é cuidar bem dela. É o que eu penso agora.
Hoje acho que sei um pouquinho mais sobre o que é ser mulher. Como já dizia dona Simone[2], ser mulher é um tornar-se a ser, não vem pronto, não vem de nascença. O que nosso corpo carrega (e deixa de carregar no caminho) nos influencia sim, mas nunca nos define. O que nos define, mesmo, é a mulher que a gente decide ser.
Ter uma coragem da porra é coisa de mulher.
É preciso coragem para decidir ser quem é.
E, por mais absurdo que pareça, é preciso coragem para viver sem dor. Só porque sim, só porque queremos, só porque podemos. E eu sei que toda mulher entende muito bem do que eu to falando.
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[1] Trecho da música “Samba da benção”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Essa canção foi um marco na Bossa Nova.
[2] Simone de Beauvoir, em “O Segundo Sexo”.

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